“Você é estranha”.
Quando ouvi isso pela primeira vez, eu me senti a última das criaturas, abandonada, jogada no mundo. Foi uma ofensa tremenda. Ok, eu devia ter uns sete anos, cabelo evoluindo pro bombril e uma mania incrível de falar sozinha em casa ou na rua. Mas nem por isso eu merecia ser tratada daquele jeito...
Meu impulso foi descer o cacete na pequena ordinária que havia me xingado. Porém, eu não era mesmo muito normal. Então sentei, chorei, pedi desculpas e disse à amiguinha que a deixaria colorir meu livrinho e andar na minha bicicleta cor-de-rosa se aquilo fosse mesmo me transformar em uma pessoa comum. Ela topou, lógico. O que eu não sabia era que eu não podia mudar a opinião dos outros e, pra piorar, eu dava mesmo motivos pra quererem me internar num manicômio infantil. Oras, eu roubava os Cavalheiros do Zodíaco do meu irmão e comia minhas bonecas. Sério! Pergunte à minha Barbie sem pés.
Além disso, quando a vizinhança inteira descobriu que o Papai Noel não existia eu dei de ombros. Mas fiquei muito magoada quando me contaram que o Super-Homem era uma invenção e que um dia eu teria que largar a mamadeira. Eeeepa! Como é que é? Como é que cometiam uma crueldade daquelas com uma criança de nove (!) anos? Me rebelei. Na MINHA mamadeira ninguém colocava a mão e dela não me separava. Pelo menos era isso o que eu pensava até o dia em que minha mãe decretou, sem brecha pra discussões, que naquela casa ninguém mamava mais. Leite só no copo. Obedeci. Mas tomei nojo. Nunca mais bebi um copo de leite sequer. Sério! Pergunte ao meu médico que já previu osteoporose pra mim.
“Você é completamente pirado. Mas, vou te contar um segredo: as melhores pessoas são assim…”
(Alice, a menina no País das Maravilhas)
Na adolescência, a mesma coisa. Enquanto as meninas que eu conhecia já namoravam, praticamente arrumavam as mochilas pra ir pra faculdade e eram super vaidosas, eu brincava com os meninos da turma. Era uma piveta. Definitivamente. E embora até gostasse de um menino, eu não tinha a menor chance. Não passava de uma paixonite, mas quando o vi com uma garota da 8ª série fazendo juras de amor, doeu. Não chorei. Sentei numa carteira, desenhei um boneco verde e falei que era eu (não me perguntem por que). Mas foi ali que minha ficha caiu. Eu era esquisita e ponto final. Nem tinha corpo de menina ainda! Era quase o Baby da Família Dinossauros. Sério! Pergunte ao colega sacana que me avisou que eu seria homem quando crescesse, porque não tinha peitos.
Eu quis dar uma voadora nele. Lembrei a tempo que isso era coisa de menino e que um dia eu seria rica o suficiente pra colocar silicone e desfilar de decote na frente dele.
Se eu mudei? Claro que não. Ok, hoje pareço menos com o Baby. Mas continuo tendo predileção por coisas esquisitas. Acho Alice chata e sou gamada pelo Chapeleiro Maluco. Pago pau pro Kurt Cobain. Como melancia em cubinhos com açúcar. Durmo com três travesseiros. Converso com meu cachorro. Torço pros anti-heróis. Não ligo se meu time perde. Adoro escuridão. Dou 30 voltas no quarteirão antes de ir pra casa. Amo andar sozinha mesmo às 23h e tendo que atravessar algum canto perigoso. Choro de rir de piadas sem graça, mas com delay de umas dez horas. Danço Beatles enquanto cozinho e obviamente me queimo com óleo (não contem pra minha mãe). Tomo banho de chuva. Finjo que Pepsi é Coca-Cola em casos muito extremos. Fico bêbada com refrigerante. Só como um tipo de chocolate. Morro de vontade de ter um amigo imaginário. Passei 23 anos achando que não gostava de strogonoff. Odeio sonhos (joguei todos fora). E falo pelos cotovelos. Mesmo escrevendo. Sério! Pergunte... Ah, deixa pra lá.

