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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um dia...



Um dia descobriu que amar intensamente só era legal em novela do Manoel Carlos e que essas paixões incontroláveis só faziam efeito em comercial de sabonete e óleos de banho. Um dia aprendeu que ser capaz de tudo por alguém era o jeito mais fácil de assinar um atestado de loucura e transformar a blusinha de verão numa camisa de força aos olhos dos outros. Um dia percebeu que pensar em alguém fugidio era o mesmo que se preocupar com a final do campeonato de várzea do Usbequistão.


I don't wanna be the girl who laughs the loudest
Or the girl who never wants to be alone
(P!nk)


Um dia concluiu que conexão espiritual e almas gêmeas eram tão falhas quanto internet discada. Um dia se convenceu de que o Eu te amo era o novo Feliz Natal, brilhante idéia para a Campanha da Fraternidade. Um dia acordou pensando que amores irrestritos eram tão inconstantes quanto a Dow Jones e que naquele mercado talvez ela não fosse entrar.

Um dia se pegou pensando que se Clark Kent e Peter Parker sobreviviam a ataques nucleares e duendes verdes voadores mas não resistiam ao amor, ela provavelmente não tinha a menor obrigação de ser diferente.

So how do I feel this good sober?
(P!nk)

Um dia ela se conformou com o fato de que era meio Cazuza, exagerada, e que vez ou outra ia acordar meio Renato Russo, distraída, impaciente, indecisa. No fim das contas, essa poesia toda não lhe caía bem e o drama que fazia lembrava, no máximo, as músicas açucaradas do Bon Jovi que o Richie Sambora esqueceu de censurar.

Tudo bem. Porque um dia ela resolveu jogar fora o último potinho de sentimentalismo que guardava debaixo da cama. Não cabiam mais tralhas no quarto.