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quarta-feira, 7 de março de 2012

Estatística

Hey, Johnny Park! by Foo Fighters on Grooveshark

O Estadão nunca publicou, mas eu sei: 90% das pessoas sofrem por amor. Isso significa, meu bem, que tem mais gente com dor de cotovelo do que passando fome. Triste. Problema social e a ONU não faz nada. Aliás, quem faz? E não me venha falar em fé. Perdi minha religião muito antes do REM, só pra citar um. 

Recorrer a quem, baby, quando mesmo com tantas repartições e gerentes de departamento celeste o Cara Lá de Cima não foi capaz de contratar um santo sequer pra ser protetor dos Corações Fudidos? Quem suportaria a demanda de quase totalidade da população mundial?

Não há remédio, amor... Literalmente. Temos pílulas azuis pra quem brocha na hora H, mas cadê Viagra pras frustrações de todo dia? Cadê Aspirina pra dor do ciúme, hein? Hein? Hein? Hein? 

Cadê programa matutino sobre bem-estar ensinando a preparar um chazinho amargo e a fazer um exercício mais potente que qualquer atividade de yoga - talvez posição de inclinamento frontal, encaixe de quadris invertido e mãos direcionadas para a Meca - criada por um especialista tibetano em esquecimento de paixões mal resolvidas e pós-doutor em libertação espiritual de exus? 

Cadê sabonete desenvolvido nos melhores laboratórios de Paris pra esfoliar esse asco, limpar essa sujeira e levar água abaixo tudo o que ficou na pele? Cadê cura? Cadê tempo, sabedoria, bons conselhos e ações efetivamente maduras pra minha idade e desespero bem disfarçados? Cadê bebida alcóolica pra gerar amnésia seletiva? 

Cadê prateleira no supermercado com suprimentos em promoção, zero açúcar e saúde sentimental pra vender? Cadê terapia? Cadê classificados anunciando entrega em domicílio de sanidade seminova, mas testada, aprovada, com  nota fiscal e garantia de 50 anos? 

Cadê razão e motivos pra ser levada a sério quando fujo, arranco a toda, acelero, não respeito limites de velocidade, mas paro na primeira curva e te procuro no retrovisor? Cadê vergonha na cara e peito inflado de gente bem decidida, cadê cérebro? Cadê você? 

Isso eu sei. Também é estatística. E nada vai mudar.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O calendário inteiro

    

Meia noite, chove, gente se abraça, troca lembrancinhas garantidas pelo 13º. Tanto clichê pra uma noite só. E as operadoras de telefonia celular facilitam a difusão de um outro ainda pior: mensagens melosas de gente que espera a tal "noite feliz" pra plagiar Mariah Carey - sem os gemidos em falsete - nas SMS curtas: "tudo o que eu quero de Natal é você"Tão ridículo pra mim. Jamais diria uma baboseira estúpida e brega dessas. Talvez porque não conseguisse mentir. A verdade é que te queria de presente o ano todo, te desembrulharia todas as noites e faria outras promessas metafóricas horrorosas pelo menos três vezes por semana.

Diria adeus a todos os anos velhos e viveria todos os anos novos contigo. Tiraria todas as suas fantasias, na avenida ou em qualquer lugar. Não teria medo dos meus aniversários e dos potes de Renew que eles trazem a cada vela que apago. Deturparia a "Sexta-Feira da Paixão" num trocadilho pra fechar a semana de uma forma nada santa. Curtiria a Páscoa numa boa, sem chocolates, mas saboreando a única delícia liberadora de endorfinas que não me engorda. Continuaria ignorando o Dia dos Namorados por mera implicância e por acreditar que poderia comemorar "você e eu" a qualquer dia, a qualquer hora, no meio do expediente ou de madrugada. Ok, me lembraria de rezar por Santo Antônio no dia 13, não sem antes resmungar por ter demorado tanto a me atender - esse careca continuaria de cabeça pra baixo lá em casa só por desaforo. 

Comemoraria a minha independência que viraria morte se me sentisse sozinha de novo. Me aceitaria criança e dividiria meus "brinquedos" com você. Te daria doces e faria travessuras...

Não odiaria a folhinha, ímã na porta da geladeira. Tudo bem pra esse "tempo, tempo mano velho" que não para.  Começaria tudo de novo, à meia noite, com chuva, gente se abraçando, trocando 
lembrancinhas garantidas pelo 13º . E daí pros clichês? Em meio a tanta mesmice que nunca se renova, eu adoraria repetir você.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Criança



Tinha sido uma menina tranquila, quase apagadinha, sem grandes histórias pra serem contadas nos almoços de família. Nunca havia enfiado o dedo na tomada, sacaneado com o cachorro, quebrado o brinquedo da amiguinha, esparramado farinha casa afora ou encenado um acesso de birra histórico dentro do supermercado por causa de um pacote de balas. Nada. Ficava sentadinha apanhando de algum primo mais velho, sendo chantageada pela coleguinha com apelido de refrigerante ou colorindo os cantinhos da parede - o que ninguém descobria até os dias de faxina e arrastação de móveis. No máximo se espatifava correndo de bicicleta morro abaixo, mas 300 caixas de band-aids na conta da farmácia e um amassadinho eterno no bumbum eram detalhes.

Fato é que cresceu do avesso. Mas Freud não explicava. Nem a melhor amiga, uma música da Adele, as apresentadoras da GNT, escritoras-pra-quem-tem-quase-30 ou qualquer cronista sentimentaloide que misturasse ser, amadurecer, fazer, dar, amar, se perder. E sem respostas virou uma adulta no RG e nas contas pra pagar com uma criança barulhenta esperneando dentro dela, perguntando por que, gritando "eu quero agora", ficando de mal com quem não queria brincar mais, fazendo bico quando ouvia "não" e se encolhendo quando percebia que jamais ganharia alguma coisa, mesmo que fosse Natal. Foi assim que entendeu, às turras, que castigo nunca foi se ajoelhar no milho, ficar trancada no quarto, perder o direito à mesada, ser proibida de ir à rua. Era poder fazer tudo, voltar pra casa depois de escurecer, se misturar com os meninos, mas sem ter graça nenhuma quando a madrugada vinha sem colo, sem história pra dormir, sem cobertor. 

E por ter certeza de que queria o que estava na prateleira mais alta dela, mas ao alcance de todo mundo, tentava ganhar no grito, no choro, na pose de "dona da verdade", no "por favor" mais meloso e arrastado, mordendo, xingando, dramatizando, protestando meio que implorando, aquilo que tanta gente tinha sem pedir e até sem querer. Não adiantava. E era aí que aprendia a crescer. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Você. E só.




Casa comigo. Assim, agora. Divide esse apartamento aqui. A gente cabe nessa cama. A gente se aperta em qualquer lugar, por enquanto, até ter grana pra ganhar espaço e comprar uma mesinha de vidro e um vaso com flores pra sala. De repente até sobra pra assinar uma revista bacana, deixar alguns exemplares espalhados casa afora e fazer cena pra quem visita, tipo "a gente se curte tanto que mal sobra tempo pra coisas banais". A gente pode ter um quintal, um cachorro. Qualquer coisa que enfeite nós dois.

Eu não me importo se você tem uma coleção de camisetas e outra de souvenirs estranhos. Dá-se um jeito. Aposto que tudo isso combina com minha coleção de duas canecas - logo logo vou ter três - e os livros empacotados no cantinho.

A gente improvisa. A gente tenta. A gente faz a gente ser mesmo "a gente". Um mais um. Pra eu ser inteira, porque têm pedaços demais com você e não dá pra sair de casa, pegar o ônibus, enfrentar a fila do pão, ter paciência com a caixa do supermercado que lixa as unhas na minha frente ou dormir ouvindo os gritos do Dave Grohl se mãos, braços, pernas, sorrisos, desejos, digitais, canções, beijos, sono, calor... tudo dobrou a esquina te seguindo. Então casa comigo. E fica aqui.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Menina aspirina


 
Quando tudo dói, principalmente os cotovelos, ele volta. É sempre assim. E toda vez que ela abre a porta, percebe que um pedaço dele parece faltar. Mas tudo bem... qual o problema se com ele ali, por um segundo, ELA vai se sentir inteira? E assim aceita se transformar em remédio tão eficaz quanto aquelas cápsulas do comercial ridículo. "Alívio imediato!", parece estampar na testa. E ele precisa de mais uma dose. Logo ele que virou vício, mas faz falta na caixinha de primeiros socorros dela. Logo ele que some sem deixar qualquer frasquinho que a salve em crise às 4h.

Ah, pra quê pensar nisso se ele voltou por mais uns dias até curar as dores de outro amor? Deixa esse orgulho de lado, menina aspirina, e dá um pouquinho do teu antídoto em troca dessas porçãozinhas de pseudo-carinho, desejo barato e promessas bobas. 

Troca o disco e deixa aquele asco copiado de uma música do Queen virar um toquezinho de fundo, piano baixinho da Norah Jones. Mas você sabe desde criança, quando se arrebentava caindo da bicicleta sem rodinhas, que todo efeito passa e nem beijo de mãe faz sarar a feridinha que arde. E que depois do choro vêm as casquinhas. E que depois das casquinhas vem aquela mancha cinza que ninguém vê, só você: é a cicatriz que a faz lembrar, vez ou outra, de que precisa apertar os freios. 

O problema é que no amor você tem pressa, acelera demais. Nunca chega ao fim da linha sem bater. E sempre retorna pro mesmo ponto de partida na esperança de uma hora chegar a algum lugar. Talvez seja esporte, uma forma nova de masoquismo. Mas um dia vai aprender, ainda sangrando, que doses pequenas não fazem  efeito, pra certas coisas não há remédio e é melhor parar de insistir.     

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O terceiro olho



Era um happy hour, mas você só chegou agora, garota. Por que? Diz que estava acompanhando uma partida de futebol, teu time perdendo. Mentira. Estava mesmo era ensaiando seu sorriso com dentes pequenos antes de sair. Todos na mesa têm nos jeans e camisetas as marcas amassadas de um dia todo de trabalho enquanto você vem com cheiro de banho e vestido solto. Metida a mulherzinha. Não quer que te vejam no pub sem se arrumar. 

Você não sabe, guria, mas essa maquiagem não esconde sua carinha de Maricota-sem-dono. E seus ombros de fora expõem ainda mais a carência que você cansou de carregar. Senta aqui, pára de olhar o casalzinho que namora e não te vê. Esqueceu que tudo isso é brega?

Se é isso que me tem ao certo
A moça de sorriso aberto...

O amor é uma invenção publicitária. Material de slogan que um romântico Amélie Poulain criou enquanto fazia brainstorm. Virou tema pra vender batom, colchão, o perfume que você usa, absorvente, picolé. É lixo que você descartou ali na esquina. Não é isso que você diz? É, é sim. Mas por trás desses óculos seus olhos te contradizem e, meu bem, tem um letreiro piscando aí pedindo companhia, uma mão pra ajeitar essa franja que não pára de cair e me irrita, um telefonema pra te acordar de madrugada, um beijo no pescoço pra... 

E não torça esse narizinho pra mim. Sua rebeldia e frieza nunca foram nem de boutique. São de bazar, e olhe lá! No máximo me fazem rir. E eu sou um cara que adora seus chiliques. Sério! Me divirto com a careta quase previsível que sempre faz quando perguntam porque ainda está sozinha nessa altura da vida. "É que eu quero um relacionamento aberto, curto swing, sou masoquista, fiz um pornô no ano passado e os homens são puritanos demais pra aceitar", responde naquele momento em que a Coca-Cola não mata a sua sede e uma dose de álcool já te faz balançar.

Depois escora o rosto nas mãos, parece se pendurar nos cotovelos e cantarola sobre a menina-na-esquina-vestindo-um-casaco-preto e bla bla bla com um gato envolvido. Derruba as respostas duras, marrentas, volta a ser meiga. Quase infantil. Sai rindo de tudo, alisando a mesma mecha de cabelo. Depois olha pra mim e diz que vai "fumar quando crescer", só pra copiar minha pose de "estátua grega na sauna". Quê? Aí me vingo. Digo que não vai. Até porque não vai crescer. Tem pernas curtas até hoje, mulher. Tão curtas quanto o "nem ligo" que sempre solta quando algo dá errado ou o "tá tudo bem" que quase tatuou na testa dias atrás só pra repelir qualquer pergunta do tipo "o que você tem?". Vontade de fazer não-sei-o-quê, eu acho. 

Agora sei, não mais reclama,
Pois dores são incapazes...
(Maria Gadú)

Faz bico de novo. Odeia que eu te analise. "Humpf! Tira esse sorriso de macho alfa do rosto. Que ridículo". E sai pisando duro, meio rebolativa, até chegar ao portão e abri-lo. Vai tomar um banho gelado, deitar com o cabelo pingando e cheirando shampoo de pêssego. Vai cair na cama sozinha, se enroscar nos milhões de  travesseiros que usa pra dormir e esperar sua hora chegar. Eu sei. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Escuta aqui...



Eu vou apontar o dedo na sua cara e pisar na pontinha dos pés pra ver se alcanço a sua altura e pareço ameaçadora. Não ria de mim e nem faça aquela careta de quem me critica porque eu já consigo fingir que a odeio e não sinto a menor vontade de pular no seu pescoço e te abraçar. Não me olhe com essa cara de quem não sabe o que fazer comigo e nem sorria nervoso, porque vou apertar meu botãozinho cara de pau e soltar um “eu te amo” ridículo, desnecessário, idiota e fora de hora, que já devia ter sido excluído de qualquer droga de diálogo entre eu e você. Então, escuta aqui... não apareça mais. Simples assim.

Não me venha quando assisto Sessão da Tarde me entupindo de doces e fingindo que aquela merda de filme com o Ashton Kutcher não me lembra você. Não apareça flutuando quarto adentro quando meu time perde um jogo e eu consigo ouvir sua voz me coretando. Não se sente na beirada da minha cama durante a noite e invada meus delírios noturnos como se existisse mesmo conexões entre almas e eu pudesse esbarrar com a sua. Não seja companhia na lanchonete quando lembro das discussões por uma Coca-Cola ou do esporro que levei da garçonete por sua culpa. Não insista em surgir quando ouço aquela música do Queen que você gosta ou quando quase sou atropelada por uma réplica do seu carro velho.

Quer saber? Escuta aqui... Eu... Ah, isso é ridículo, desnecessário, idiota e fora de hora.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

E elas só querem...

Pegava um ônibus lotado de segunda a sexta, subia uma escadaria enorme e se trancava no escritório da empresa. Entre as notas para emitir, os telefonemas para atender e os beeps da chefe pedindo urgência, ela arrumava tempo para cutucar as amigas na internet. Era magrinha, baixinha, engraçadinha, toda inha. Mas os olhos gigantes e incrivelmente escuros pareciam mostrar que dentro da estrutura pequena haviam coisas enormes querendo ser gritadas. E isso ela fazia muito bem. Porque tão largo quanto o sorriso era o repertório de palavras que conseguia emitir por segundo. 

Aos sábados saía para dançar num daqueles lugares que David Guetta mandaria benzer. Sem um pingo de paciência pro tuntz, tuntz, tuntz das boates, vestia uma sainha florida e cheia de babados com camisetinha branca, trançava o cabelo lisinho e ia marchando praquela casinha de shows em que dançava o forró universitário mais desengonçado que o mundo já havia assistido. Mas era linda sempre. Mesmo quando bebia e atirava copos de cerveja em quem passasse pela frente. “Sei lá o que me deu. Será que preciso ser exorcizada?”, questionava depois às amigas enquanto segurava uma gargalhada capaz de contagiar um soldado da guarda inglesa. E quando acabava a noite voltava pra casa lendo o livro do Gabito Nunes, vez ou outra olhando pela janela do táxi se questionando qual daqueles carinhas na rua a suportaria na TPM ou diria que mesmo amassada pela manhã ela continuava sendo a mulher dos sonhos dele.

Você existe, eu sei. 
Em algum lugar do mundo você vive ... 
Vive como eu onde eu ainda não fui ...
(Biquini Cavadão)


Quase nunca ela sorria. Sabe-se lá por que. Se perguntada, incorporava uma Maria Gadú afetada e cantava Lanterna dos Afogados para se explicar, segundos antes de rodopiar pista afora com qualquer música do Pussycat Dolls. “Mulher tem que ser eclética, minha filha. As poderosas são assim”, dizia empinando o nariz e citando um livrinho que tinha baixado pela internet. Gastar, só com o corpete pretinho e outras peças básicas que a deixavam ainda mais mulherão, além da mensalidade da academia. No mais, economizava pra fazer algo grande. “Quero ir pra Dubai. Sozinha”. E que ninguém se atrevesse a pedir pra ir junto. Era o tipo de garota que sabia de tudo: opinava sobre a embromação de Ronaldinho Gaúcho, as pernas da Ivete Sangalo, a banda inglesa nova, o corte de cabelo da amiga, as flutuações econômicas na indústria de charutos cubanos. Tudo isso enquanto arqueava uma sobrancelha e analisava as unhas. 

Decidida, não engolia sapos de ninguém e era capaz de calar o chefe caso viesse com papo torto pro lado dela. Só não era assim com quem amava e se transformava na pessoa mais doce e compreensiva que alguém podia conhecer. Dava colo, beijo, coração, alma e um pote de sorvete. “Posso ser amável se me derem chance”, cantava no chuveiro. À noite abraçava o travesseiro, rezava pelo bem daquele com quem sonhava e... não dormia. Tudo bem. Porque o telefone tava tocando. Era a amiga louca contando que havia dançado forró demais, bebido demais e atirado cerveja nos outros.

Se eu não posso ter
Fico imaginando...Eu fico imaginando
(Skank)


Tinha tatuagens pequeninas – mas queria fazer uma gigante –, uns poucos piercings espalhados, mania de escurecer o olho com sombra e usar blush. “Pra não ficar com cara de doente”, explicava. Quem a via batendo perna na rua em dia de calor num vestidinho florido e com a trança despenteada jurava ser ela uma moleca bem-resolvida. Mais ainda quando tomava cerveja pra parecer legal e ria solta até dessas piadas de pontinho. Gostava de se olhar no espelho à noite usando um pijaminha leve ou o conjuntinho atrevido que havia comprado. “Poxa, mas tú é gostosa, hein?”, dizia olhando a imagem refletida, fingindo não estar incomodada com um monte de detalhes. Então pulava no sofá e assistia TV com as pernas pro ar, feito criança. 

Passava horas lendo coisas chatas pra faculdade e às vezes saía. Bebia uma tal de Melancia Atômica, pirava um pouco e dançava funk, mesmo traumatizada porque não conseguia ir até o chão. Depois da festa caía na cama e se lembrava do gay que conheceu na fila do banheiro: “Homem não presta, meu bem. Abandonei aquela laia e virei bicha”, disse gargalhando meio bêbado, meio histérico demais ao perceber a própria ironia. Ela sorriu no canto da boca antes de apagar e pensou que prestando ou não queria ter alguém a tiracolo pra coretar o jeito que dançava, reclamar da lambança que fazia com o catchup e dizer que sentia sua falta. Alguém pra ligar de madrugada e dizer que amava, jogar Stopots e decorar manias. Alguém pra planejar uma viagem pra Dubai. Sem a amiga marrenta que queria ir sozinha.


... que seja bom pra mim...
Vou procurar... eu vou até o fim
(Frejat)


Ela perdia a noção do tempo ajeitando a franja e se divertia desviando-a do rosto. Na danceteria enorme preferia o scotch bar ao ambiente trance. Ainda assim, quem passasse por ela a encontraria suada dentro do vestidinho preto. Pose tipo o-mundo-vai-acabar-e-ela-só-quer-dançar. Mesmo que fosse uma versão em jazz da música do caminhão de gás. Mas quando se sentava e resmungava por dentro sobre o sapatinho que apertava os pés, sabia que queria mais. “Uma caipirinha, por favor!”. E voltava a dançar sobre o salto infernal, solta, leve, com a mesma desenvoltura que exibia andando de camiseta, jeans e All Star. Primeiro no corredor da faculdade. Depois entre as salas da agência. Adorava viajar, mesmo que fosse olhando pro teto no quarto. 

Cabia em qualquer roupa, mas não em qualquer canto, porque quando falava o espaço se enchia dela e pra ela. Tinha queda pelos caras que ninguém adivinhava, ligava o ventilador no inverno e curtia ganhar presentes inesperados, mesmo que comprados por ela mesma. “Tô me agradando, ué!”. Se entupia de chocolate e não engordava, adorava a família, tinha os pés pequenos e os sonhos grandes. Curtia abraço, a melhor amiga e conselhos sem sentido. “Seja tudo, faça tudo, experimente tudo. E oh, te cuida”, dizia àquela garota que fingia ser moleca bem-resolvida. Então saía correndo sem cobrar a sessão de terapia no boteco e dizia que qualquer reclamação, bastava falar com Freud. Pegava carona com algum companheiro de balada e tagarelava sobre tudo, sobre o mundo. Só não falava de si. “Ah, pra quê? Deixa eu guardar um pedacinho de mim”. Pedacinho que ela entregaria pra alguém mais tarde. Assim, do nada, sem planejar. Se esse alguém aparecesse e quisesse carregar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um dia...



Um dia descobriu que amar intensamente só era legal em novela do Manoel Carlos e que essas paixões incontroláveis só faziam efeito em comercial de sabonete e óleos de banho. Um dia aprendeu que ser capaz de tudo por alguém era o jeito mais fácil de assinar um atestado de loucura e transformar a blusinha de verão numa camisa de força aos olhos dos outros. Um dia percebeu que pensar em alguém fugidio era o mesmo que se preocupar com a final do campeonato de várzea do Usbequistão.


I don't wanna be the girl who laughs the loudest
Or the girl who never wants to be alone
(P!nk)


Um dia concluiu que conexão espiritual e almas gêmeas eram tão falhas quanto internet discada. Um dia se convenceu de que o Eu te amo era o novo Feliz Natal, brilhante idéia para a Campanha da Fraternidade. Um dia acordou pensando que amores irrestritos eram tão inconstantes quanto a Dow Jones e que naquele mercado talvez ela não fosse entrar.

Um dia se pegou pensando que se Clark Kent e Peter Parker sobreviviam a ataques nucleares e duendes verdes voadores mas não resistiam ao amor, ela provavelmente não tinha a menor obrigação de ser diferente.

So how do I feel this good sober?
(P!nk)

Um dia ela se conformou com o fato de que era meio Cazuza, exagerada, e que vez ou outra ia acordar meio Renato Russo, distraída, impaciente, indecisa. No fim das contas, essa poesia toda não lhe caía bem e o drama que fazia lembrava, no máximo, as músicas açucaradas do Bon Jovi que o Richie Sambora esqueceu de censurar.

Tudo bem. Porque um dia ela resolveu jogar fora o último potinho de sentimentalismo que guardava debaixo da cama. Não cabiam mais tralhas no quarto.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Carta ao Homem de Lata




Oz, 07 de dezembro de 2010

Querido ser de alumínio,

Eu deveria começar esta carta perguntando sobre seu dia ou ao menos questionando “como está?”. Não vou perder meu tempo. Sei a resposta: você está louco, insano, débil, pirado. Talvez até burro. Ok, não estou sendo educada. Mas como me conter quando ouço dizer que você quer um... um... um coração? Se estivesse na sua frente agora, te daria um tapa na cara  antes de perguntar se por acaso também não te falta um cérebro.

Qual é o seu problema, meu filho? Pra quê quer carregar no peito essa coisa ridícula que vira e mexe dispara dentro de você? Por que possuir essa maquininha de batimentos que só se engana e te leva da euforia ao desespero em dois segundos? Que diabos o faz pensar que ter um coração é bom quando na verdade ele vai doer vez ou outra ou se encolher e dar a sensação de aperto?

Pior é que ele emite sinais externos, sabe? É palhaço e chama a atenção. Faz todo mundo olhar pra sua cara de maior abandonado e perguntar o que tá havendo. O jeito é mentir: “Ah, me emocionei com o elenco de Glee cantando Madonna e usando cintas-ligas”; “Tô comovida porque o U2 vai fazer um show extra”; “Não segurei a emoção quando o Fluminense venceu o Brasileiro”.


Saw a man in the movies that didn't have a heart
How I wish I could give him mine
(Kenny Chesney)


Mas bom, se você quer encarar tudo isso, pode ficar com o meu. Posso enviá-lo via Sedex sem cobrar qualquer taxa. Se preferir, faço embrulho de Natal e mando cartãozinho junto. Posso até pedir Papai Noel pra colocar debaixo da sua árvore. 

Se está em perfeitas condições? Não, não está. É meio quebradinho nas beiradas, arranhadinho no meio, bate um pouco menos. Anyway, funciona. E não reclame. Nunca ouviu aquele ditado que diz: “em coração dado não se olham as artérias”? Tá, inventei essa. Mas você entendeu, não é?

Olha, quero deixar claro que essa porcaria aqui é toda sua. Tô doando de coração (a-ha! Foi uma piada! Entendeu?) e n
ão quero nada em troca. Juro. Só exijo uma coisa: quando esse coração começar a ficar travesso e te fizer sentir falta do que nunca foi seu; ter saudades do que não viveu; ouvir The Only Exception em versão acústica, rock, sertaneja, forró, eletrônica e funk; achar Crepúsculo vergonhosamente lindo; sofrer dores que nenhum comprimido cura e ter impulsos loucos que não consegue entender, fique na sua, controle essa porra e não pense em me devolver.

Sem amor, 
Eu.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Enquanto ela chorava

Enquanto organizo as prateleiras eu ouço: ♪ Tão Sozinho (Los Hermanos)

♫ “Ah vai, me diz o que é o sossego, que eu te mostro alguém afim de te acompanhar ... E se o tempo for te levar, eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar...”.

Fazia frio, muito frio. Da sacadinha em que eu me encolhia e tentava me esquentar, a pequena multidão lá embaixo era uma massa colorida de capuzes, blusões de frio e gente animada fazendo coro pra banda cover do Los Hermanos. O vocalista, apesar de pequeno, parecia ter pulmões de aço e vez ou outra gritava afinado. Fechei os olhos e concluí: se eu quisesse me iludir, diria que era o Marcelo Camelo no palco em carne, osso e barba, tamanha semelhança na voz.

♫ “O vento vai dizer, lento, o que virá... E se chover demais a gente vai saber...”.

Era difícil não se empolgar. Todo mundo cantando junto, pulando, tentando espantar o vento gelado. Mesmo não estando no meio da muvuca, me peguei dançando e acompanhando a canção de um jeito quase histérico. Comecei a me balançar um pouco mais, provavelmente no cúmulo do desengonço, enquanto bebia a Coca-Cola mais cara que já comprei na vida. E foi no exato segundo em que eu reclamava do preço e prometia outra abstinência de refrigerante pra desencargo de consciência, que eu dei de cara com ela: do lado oposto da sacada, quase escondida pelos estudantes que iam e voltavam com copos de cerveja ou pelos casaizinhos xavecando, uma menina chorava. Não sei se por frio ou por orgulho, ela cruzou os braços e não fez qualquer esforço pra limpar a mistura de lágrima e rímel que escorria bochecha abaixo, mas manteve o olhar centrado em algum ponto lá embaixo. Será que chorava por alguma coisa que via ou eram os pensamentos dela que faziam doer? Havia recebido uma notícia ruim por celular? Discutido com a colega de república? Brigado com o namorado?

♫ “Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim...”.

A menina começou a cantar junto, mas parou. Apertou ainda mais os braços contra o peito, se encolheu um pouco e chorou com mais força. Isso tudo sem parar de olhar pra alguma coisa no meio da aglomeração no pátio. Não me segurei. Olhei na mesma direção e entre grupinhos que riam de alguma piada interna, gente que andava de um lado pro outro e turmas fazendo pose pra fotos que iam parar no Orkut, um casal se destacava. Era pra ele que a menina olhava. O rapaz e a outra garota só conversavam, mas daquele jeito próximo que era fácil prever o que ia rolar depois. Três, dois, um. Eles se beijaram. A menina que chorava desabou. Quase vi os pedacinhos dela no chão. Agora ela soluçava, desconsolada. Comecei a me perguntar se ela não tinha amigos. Poxa, ninguém pra ficar por perto, pedir pra não chorar ou até ficar em silêncio? Ao menos uma companhia mais impaciente que soltasse um discurso tipo: “Deixa de escândalo. Tá careca de saber que ele não gosta de você. Enquanto tu chora, ele vai levar a outra pra casa, passar a noite com ela e ...”. Não, não. Ela estava sozinha. Talvez por opção. “Me deixem sofrendo em paz, porra!”.

Se era isso mesmo, eu desrespeitei. Quando dei por mim, tinha parado na frente dela. “Moça, tá tudo bem?”. Pergunta estúpida. Mas ela me respondeu, sem olhar pra mim. “Tá sim. Eu só preciso chorar. E vai ser a última vez”. Nós duas sabíamos que não. E antes que eu dissesse qualquer coisa, ela ensaiou um sorriso: “Hoje. Última vez hoje”. Concordei, meio sem jeito, e me arrependi de ter puxado conversa. Não havia nada que eu pudesse fazer. Eu não tinha remédio algum pra dor que ela sentia. “Vai passar”, soltei. Ela riu de novo, ainda sem me encarar. “Não parece...”. Quem encarou o chão fui eu. “É só impressão”, disse meio gaguejando, e continuei:
- Você vai...
- ... esquecer? – ela completou.
- Não sei se era bem o que eu devia dizer ... Eu não sei...

E antes que o papo se estendesse, eu senti que precisava correr. Trocamos um tchau meio tímido, cheio de reticências. Eu sabia que ela ia continuar chorando. Ela sabia que eu ficaria refletindo sobre aquilo tudo.

♫ “Então tô indo pra onde você sempre quis. Adeus amor, eu quero ser feliz com meu coração...”.

Droga, lá estava eu comprando outra Coca-Cola mega-inflacionada. Eu precisava pensar.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Quando você chegar


Enquanto organizo a prateleira, eu ouço: ♪ Boo Hoo (KT Tunstall)

Eu não tenho medo do escuro. Não mesmo. Até gosto de ficar quieta, pensando, imersa nele. Baratas também não me assustam. Posso ter um pouco de nojo, mas sei me virar quando uma aparece. Tá, eu tinha medo do Dexter até dois dias atrás. Já passou. Nada que assistir a uns bons episódios sem tampar os olhos não resolva.

O meu pavor é de não ver você chegar. Nunca, nunquinha. E eu continuar aqui sozinha. Você devia dar notícias, mandar um sinal, contar onde está. Só pra eu ter certeza e não sentir que fico esperando à toa. Qual seu nome? O que você faz? Também me procura ou anda errante por aí?

Sabe, eu tenho te buscado. Soa até como uma brincadeira... Seria o carinha da padaria, o mocinho do laboratório de informática, a figura desengonçada que corre na avenida, o aluno de História que eu nem sei o nome, aquele motorista que quase me atropelou no cruzamento, o carinha com camiseta da Itália na república ou alguém que eu sequer conheço? E se você estiver aqui ao lado? Peraí, deixa eu checar...

Ah, é... tô sozinha aqui. Droga.

"Be my baby and I’ll look after you..."
(The Fray)


Sei lá... você pode ser o rapazinho solitário do cinema. Mas nem olhou pra mim. Então... Deixa pra lá.

Ei, eu vou te reconhecer? Vou saber que é você? Ou vou passar tropeçando do seu lado? Vou gostar de você de cara ou vou passar um tempo te achando meio besta até perceber que tenho uma quedinha?

Vamos ser amigos? Vou te ouvir contar das outras enquanto me remôo por dentro? Ou vou ser pega de surpresa? “Pá-pum! Opa, aconteceu...”.

E se eu errar? E se eu pensar que te encontrei e falhar outra vez? E se o meu cansaço não me deixar me abrir de novo? E se você me encontrar descabelada na rua? E se aparecer no pior dia da minha vida e me achar de cara amarrada? E se eu te contar meus segredos? E se eu confessar as coisas que não agüento mais? E se eu avisar na lata sobre as coisas inúteis que eu sinto? Mesmo assim você vai ficar?

"All of my life, where have you been?"
(Lenny Kravitz)


E se eu contar que ninguém nunca gostou de mim? Vai me desclassificar na sua fila e achar que a voz do povo é mesmo a voz de Deus? Ou vai dizer que topa ser o primeiro?

Se bater à minha porta e eu não atender, você vai voltar? Se num acesso de raiva eu te mandar ir pro inferno, você vai gritar comigo e dizer que só vai aonde eu for? Se eu disser que quero colo, você vai me dar? Se eu contar que não sei cozinhar porcaria nenhuma, vai se contentar com minhas balinhas de Leite Ninho, miojo, almoço enlatado e pizza?

Vai me dar a chance de cantar Sapato Velho ou When I’m 64 pra você?

Quando eu começar a fazer tantas perguntas, você vai tentar me responder?